Meu amigo Tião

Precisou que se passasse uns 30 e poucos anos da vida de Tião para que eu nascesse.
Precisou que se passasse uns 20 e poucos anos de minha vida para que eu conhecesse Bárbara.
Precisou que eu conhecesse Bárbara para conhecer Tião.
Precisou que se passasse 10 anos de amizade com Tião para que ele falecesse.

Acredito na vida após a vida. Mas sou humano e, como todos da espécie, me apego à presença visual das pessoas. E Tião era uma delas.

Quando nasceu, choraram sua falta os que ficaram no plano do Espírito.
Quando seu corpo morreu, choraram os que o viram partir para o plano do Espírito novamente.

Quis o Universo que eu conhecesse Tião e ele a mim.

Sinto saudades de Tião.

Ele era implicante. Muito implicante. E gostava de implicar com “A Velha”. Esta, é a avó materna de Bárbara, Conceição.

Belo dia, quis eu entrar na famigerada implicância e, ao abraçá-la, cantei “Conceiçãããããoooo….” ao que ele prontamente completou rindo de se acabar “… Eu me lembro muito beeeemmm…”. Típico do gaiato. E Tião era um gaiato. Gaiato velho e experiente.

Isso tornou-se um ícone de nossos encontros; não só em Padre Miguel mas em qualquer canto que Tião me avistasse (e poderiam ser muitas vezes no mesmo dia) ele vinha:

— Vai cantar o quê???

Ao que eu respondia cantarolando e abraçando-o como um boêmio (ou, dependendo da distância, apenas abrindo os braços):

— Conceiçããããããooooo….

Gaiatice.

E todos gostavam e se riam.

Até que nossa implicância teve que ser clandestinizada. A Velha, um dia embebida em azedume, fez cara feia. Como que contaminados pelo azedume, todos fizeram cara feia e fomos para a berlinda com nossa brincadeira. Esta, jamais havia terminado até o último dia em que nos encontramos; mas fora para sempre marginalizada.

Tião era chamado por Sueli, madrinha da Bárbara, de Tião Medonho. Consigo imaginar alguns porquês. Nada muito esclarecido. Nem precisava. Bastava olhar para a cara do Tião para entender a alcunha.

Conversávamos bastante quando nos encontrávamos. Mas sempre com poucas palavras e muitas risadas. Maior parte das vezes eu era apenas ouvidos e risadas para suas gaiatices.

Tião gostava de músicas antigas, e eu o acompanhava porque também gosto das velharias. Certa vez ele me pediu para que eu gravasse três CDs para ele: Estúpido Cupido Internacional, A Escalada, e Saudade Não Tem Idade. Os dois primeiros eram discos de novelas antigas da Rede Globo. O último, uma coletânea de antiguidades. Aliás, coletâneas como essa ele tinhas aos montes. E dançava todas com aquela cara de saudosista gaiato.

Nunca cheguei a gravar o último disco.

Tião era amigo de todos e todos eram seus amigos. Se Tião já teve algum inimigo, este deveria ter sido sujeito inexistente pois eu jamais o conheci ou encontrei alguém que confirmasse sua existência.

Tião era fanfarrão. Mas a fanfarronice dele começou a ficar estranha de uns meses até cá. Algumas ziquiziras de saúde eu ouvia que ele tinha. Mas ele se “recusava a ir ao veterinário”, como dizia (e quis o Universo que eu me formasse veterinário).

No último mês vi Tião duas vezes. No casamento da Fabrizia, filha do padrinho da Bárbara, e num dia quando fomos à casa da Velha Conceição (que era vizinha dele, esqueci-me de mencionar). Nesta vez que fomos na Velha, vi fotos de Tião com a mãe da Bárbara, Graça, filha de Conceição. Ambos pequenos. Tião era um membro adquirido pela família nos idos dos anos de 1950. Sempre morando porta-a-porta.

E neste dia, ao irmos visitá-lo, ele estava pra baixo, queixando-se de uma dor na barriga que estava inchada. Até que, pela primeira vez que tive notícia, Tião foi convencido a ir ao médico (veterinário). Daí partiu para a internação.

Algumas semanas depois, ele falecia, com sessenta e poucos anos. Dia 17 de outubro, entre 4 e 5 da manhã, horário de verão, no dia do aniversário de seu filho mais novo.

Eu e Bárbara não fomos visitá-lo no hospital durante sua internação. Se tivéssemos optado em ir, tinha que ser bem no início, pois, pelo que ficamos sabendo por Graça, ele estava definhando e já tinha jogado a toalha.

E então foi ontem que ao chegar no velório em Padre Miguel, eu mentalizei Tião, abrindo seus braços em minha direção, com um sorriso gaiato estampado na cara, perguntando: “Vai cantar o quê??”

E eu não consegui cantar.

"Vai cantar o que?": Tião na festa de seu neto.

“Vai cantar o que?”: Tião na festa de seu neto.

Tião empurrando A Velha por pura implicância.

Tião empurrando A Velha por pura implicância.

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9 opiniões sobre “Meu amigo Tião

  1. Não tenho nem palavras para dizer o que eu estou sentindo…apenas uma profunda tristeza … conhecia Tião desde que me entendo por gente…e foram anos aguentando todas as crianças juntas em penedo….Vera e Tião iam sempre na frente…e a gente ia junto…papai falava…”Vão na Frente pq Vera e Tião ja chegaram lá”….e não tinha jeito…sempre amorosos com todos nós…aguentanto todos os meus choros…rs pq sempre fui chorosa…e meu irmão o mais peste do mundo…
    Sempre que via Tião ele estava mesmo Chritian, com os braços abertos pra receber a gente…sempre com sorriso no rosto…pena que não pude visita-lo pois tb estou internada…
    Tenho gravado no cd do casamento eu brincando com o Tião e dando um beijinho naquela barriga que todos adoravam…ele realmente fará muita falta….mas ainda bem que existem as lembranças…

  2. Cris, para ser bem sincero neste momento estão escorrendo lágrimas em meu rosto . Não tenho palavras para te agradecer todo esse carinho transformado em texto que escrevera para meu pai, não poderias ter descrito com melhor perfeição suas características, qualidade e defeito. Muito obrigado de coração meu amigo, adorei essa homenagem. Grande abraço!!

  3. Eh, Christian. Só quem conheceu o Tião, sabe o significado de todas essas tiradas que ele tinha. Um ser humano raro, com um humor mais raro ainda, que levava a vida sem deixar que NADA o abalasse. Conheci Tião ainda muito menina, com uns 16 anos. Namorei o filho dele (André) por cinco anos, mas não levou este tempo todo para que eu me “apaixonasse” pelo Tião e que nosso vínculo se tornasse algo tão belo. Com certeza vinha de outras vidas. O carinho era sublime demais. E acho que ele me adotou como filha, sabe?! Foi muito maravilhoso reencontrá-lo, conviver novamente com este espírito tão lindo, que nos antecedeu na vida espiritual. Espero que ele esteja bem, da mesma forma que sempre estava por aqui…

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