Terça

Não há mais sentido no que faço. Nenhum norte. Nenhum oeste. Vontade de comprar uma passagem sem volta para a cidade mais ao norte do planeta. Aonde eu pudesse me distanciar dessa cidade nojenta que odeio. Desse povo purulento. Composto maléfico, união estável e indissociável de pobreza, imundice, putaria, senso comum e malandragem. Passar fogo sobre meu presente e enterrar fundo meu passado. Anular minha existência. Seguir para o Norte e me associar a outras moléculas que desconheço. Outras companhias. Outra família. Outra vida. Renovar os núcleos pesados que me afundam. Restruturar o ser invadido de podridões que sou. Não mais saber o nome de ninguém para não mais saber quem são. Cortar essa praga de lavoura de humanidade definitivamente da minha vida. Reinventar quem sou através do que vivo. Estou preso à vida que escolhi sem saber. Sinto as ligações deterioradas. As mesmas perguntas alimentadas pela burrice crônica e estacionária. Devo dar as mesmas respostas como um hábito nocivo que me consome. Devo ver o dia acabar sem me levantar da cama. Ver o sol se pôr sem reconhecer seu brilho. Ver meu corpo se deteriorar com um riso sardônico que já não agüento mais mirar. Sumir para longe quando a noite calar o sotaque pestilento. Quando o chôro deprimido for calado pelo sono inevitável. Quando todas as fotos se amarelarem pela necessidade da chegada do futuro. Me fizeram molécula. Um tipo. Agregável com moléculas semelhantes que não quero mais me agregar. Preciso mudar minha estrutura para sempre e me associar a todas as dimensões. Permeando o espaço com minha viagem pelo tempo e esquecer o tempo. Desejo que a vida-média dos átomos que me compõem seja reduzida a segundos. Me veria livre do carcomido e adiposo monte de lixo. Viajaria o mundo e o Universo com a liberdade de quem nasce o primeiro nascimento. Peso. Não. Vida. Todas. Esferas sólidas me pesam as tíbias. Cantos do mundo que só imagino pelos olhos da mente me chamam para que eu os encontre. Mas devo me contentar com as imagens captadas pelos olhos míopes de quem não sabe enxergar mas quer ser enxergado. Dizimaria todos. Vou carregar minhas moléculas para outro canto. Onde me será revelado um triste fim de confinamento às paredes que jurei derrubar. Meu testamento. O testamento da existência que não queria ter existido é permanecer em órbita. Pulsando ora luz, ora escuridão aos telescópios dos curiosos observadores e rotacionando infinitamente por sobre o eixo do ninguém que sou.

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