Confissão

Vim aqui confessar.

Meu ano de 1993 foi um dos piores que já vivi no meu percurso de quase 36 anos de vida. Neste ano, quando estava com 16 anos na beira para os 17, o militarismo ao qual fui doutrinado no seio de minha família, liderado por uma pai que só faltava vestir uma farda para “educar” os filhos, chegou a um dos seu picos.

Em prol de me colocar na linha para viver uma vida que não era a minha e ser uma réplica perfeita de um fodido, meu pai cerceou todos os meus prazeres da adolescência, transformando minha vida numa prisão domiciliar em regime semi-aberto.

Neste ano de 1993 fui proibido de ver minha namorada. Fui impedido também de continuar a tocar com minha banda cover dos Beatles, minha primeira banda. Minha rotina consistia em voltar do GPI para a prisão em no máximo 1 hora e ficar trancado no quarto, sem poder ler nada que não fossem apostilas. Nada de TV, filmes, revistas, quadrinhos, violão, discos, telefonemas.. nada. Foram muitos meses assim. Ao mostrar as notas de testes e simulados, eu ouvia palavras humilhantes que não valem ser repetidas. Daí rapidamente voltava para o xilindró.

Todos sabem que quanto mais preso um animal fica, mais demoníaco ele se torna. Perdi minha domesticação completamente e me tornei um catiço. Marcelle, minha amiga de 3º ano do Colégio GPI, durante nosso Mega Encontro de turma no sábado dia 26, perguntou pertinentemente à Bárbara se ela já havia me conhecido domesticado. Era por aí o papo.

Muitos amigos sofreram com minha falta de domesticação. Eu descontava minha raiva da vida em alguns com patadas e xingamentos. Caminho natural de quem vive apaticamente repetindo, como um macaco de circo, o que lhe foi ensinado.

No início de 1993 eu me matriculei no Colégio GPI, unidade Madureira. Este momento foi o começo da ruína de uma vida que eu já julgava arruinada. Por sorte estive amparado, em perfeito equilíbrio, pelo outro lado da balança: minhas amizades. E foi aí que meus amigos do GPI entraram na estória. É por isso que estou escrevendo isso tudo.

Eles não sabem que foram os responsáveis por eu ter sobrevivido a este ano. Foram ótimos todos os “compactos de história e geografia” e os projetos de “arrancada final” e todas as aulas à tarde e aulas dominicais. As idas ao Tem Tudo de Madureira e as caminhadas até o GPI de Cascadura. Eu pedia para meu carrasco pagar todos esse extras, com a desculpa de que eram necessários à minha vitória na vida: o vestibular. Cada cheque entregue na secretaria representava um passaporte para uma liberdade muito particular.

Apesar de estudar, obviamente eu não frequentava os extras com este fim, mas para ficar junto dos meus amigos. E os momentos foram memoráveis, sem preço, indescritíveis com palavras. Eu me deslocava a Madureira com imenso prazer.

O resultado disto? Estou vivo. Meus amigos do GPI, foram imensos colaboradores para que eu conseguisse chegar a este ponto de sobrevivência à minha própria família.

Os encontros sucessivos de nossa turma, neste ano de fim de mundo de 2012, só vieram confirmar o quanto eles são especiais. Ninguém me julgou ou veio tirar alguma forra, no que estariam cobertos de razão. Todos me aceitaram e recordamos apenas dos bons momentos. Já senti uma imensa vontade de me desculpar às pessoas que mais sofreram meus ataques. Mas deixei de lado. A imensidade do carinho com que me receberam dissolveu esta vontade, que mais traria más recordações que a redenção.

O Mega Encontro da turma foi ontem. Acordei hoje com isso tudo na cabeça. Sei que faltam pessoas importantes nesta mensagem, mas está valendo. Carrego todos no coração. Cada pessoa presente ou ausente no encontro carrega um pouco da minha salvação.

Por que estou escrevendo isso?

Como dizia Miranda: “Porque estou a fim!”

Stay on these roads. We shall meet, I know.

Amo vocês.

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